Delirium

"Tão suave como um campo de lírios alucinógenos. Uma perturbação delirante da consciência para transpor um pensamento poético."

Nem tudo é o que parece ser

Na minha vida de importante somo dois tesouros: meu pai alcoólatra e meu cachorro pulguento.
Meu pai odeia meu cachorro por achar que eu endereço maior valor a um ser irracional, quem em seu juízo, é tão inferior aos humanos, enquanto minha família (ele) fica a mercê de migalhas afetivas. O que não deixa de ser verdade.
Já meu cachorro odeia meu pai. Isso se dá, desconfio eu, pelos maus tratos sofridos pelo animal.
Com isso enfrento a mesma rotina desgastante todos os dias. Enquanto preparo o almoço vejo o velho alcoolizado gritar e lançar objetos no pulguento, e o cachorro hiperativo e irritado manifesta-se com graves latidos e rosnadas violentas. Contudo o que mais me impressiona é que quando sirvo a refeição, e o velho se prepara para devorar sua comida, o cãozinho imediatamente pula no colo do velhote e ali se deleita manso e carinhoso. O bêbado patriarca após o término da refeição coloca o prato no chão e dorme acariciando o animal. Após os primeiros roncos o cão pula agilmente no chão e come o restante da comida que o prato armazenava.
E assim eu percebi que nem tudo é o que parece ser, pois meu pai que se julga tão superior a um ser irracional na verdade não passa de um ser carente e isso é o combustível da sua desgraça emocional, e sinceramente não consigo encontrar nem um resquício de superioridade em um homem alcoolatra solitário e carente. Já o animal odeia meu pai, mas precisa de uma encenação a caráter para garantir sua comida e sobrevivência. Em suma, eu morro de medo de alimentar o cachorro e ele se vingar do meu pai, e de sua superioridade, o abocanhando até a morte!

Ultimo poema para você

Foi uma epopeia pelo obscuro da vida
Quando te perdi em meio à tempestade sentimental
Que abalava minha já deficiente forma de raciocínio.
E como um andarilho que por nada procura
Vaguei só, por uma multidão de transeuntes enérgicos.
Ali todos me conheciam e cumprimentavam-me,
Eu estático lembrava-me do seu repentino desaparecimento
Esquecendo-me do objetivo, esquecendo não! Eu não o conhecia.
Vendo que ali era a escada de acesso a loucura
Decidi abrir mão de amar-te para ressuscitar o “eu”
Que soterrado estava adormecido no profundo do meu intelecto.
Ele estava lá dês da sua chegada amor... EX-AMOR!
Agora sendo eu, preciso aprender a escrever e sentir outra coisa a não ser você!

Senso quase comum

Certas coisas eu não entendo!
Por exemplo:
Por que Maria é o par perfeito de João...
Não deveria ser o de José, ué?!
Também não alcanço
A forma criancionista de pensar de Clarisse Lispector
E algo me diz que perco muito com isso.
Não compreendo porque o ser poeta humano
Entra em estado defensivo quando questionado
Seu nível de mediocridade.
Não entendo o vazio humano,
Tão grande... tão plural... tão doloroso!
Por não saber, digo que é espiritual.
Não alcanço a forma de pensar dos cachorrinhos,
Fiéis a um dono que o mantém em cativeiro.
(não compreendo os homens que se detém em cativeiros.)
Agora o que eu realmente não entendo:
É o silêncio
Que soa como valsa
Na troca de turno dos grandes firmamentos.
Tão silente e tão harmônico.
Como um som colorido para os surdos.

Reflexo urbano

Da janela daquele arranha céu eu via a vida urbana.
Espelhos que serviam como janelas,
E Janelas que serviam como espelhos...

Velhos que davam conselhos a jovens,
E jovens que apenas ouviam velhos falando...
Pra que conselhos?

Nas bancas expostos havia livros de poesia surrealista,
Lógico que não era para os velhos (velhos buscam salvação)
E também não era para os jovens! (jovens buscam excitação).
E tão pouco para mim... (Não sou chegado a vales obscuros de medo onde caminha a dor.)

Os velhos, os jovens e os poemas eram a cidade.
A cidade era o arranha céu que também era um poema surrealista.
E lá da janela, que era espelhada, percebi que o reflexo da cidade ali manifestado era o meu!

Presságio II

Formigas hiperativas e ouriçadas traçando caminhos tortuosos no chão é sinal de chuva.
Velhinhas no ponto de ônibus com guarda-chuvas... significa que além das formiguinhas estarem certas você chegou na hora certa, lá vem o ônibus. Afinal velhas senhoras sempre sabem os horários do maldito meio de transporte dos pobres urbanos.
O sino da igreja badala anunciando que é chagada a hora da “ave maria”. As velhinhas se benzem beatamente... as formigas se recolhem aos seus buraquinhos de insignificância, os guarda-chuvas se abrem, o ônibus chega e a chuva desce brincante escorregando pelo chão e transformando em lama o caminho deixado pelas formigas... agora é lama o que outrora foi presságio.

Presságio

Formigas hiperativas e ouriçadas traçando caminhos tortuosos no chão é sinal de chuva.
Velhinhas no ponto de ônibus com guarda-chuvas... significa que além das formiguinhas estarem certas você chegou na hora certa, lá vem o ônibus. Afinal velhas senhoras sempre sabem os horários do maldito meio de transporte dos pobres urbanos.
Agora, aquele sorriso afetuoso com cheiro de abraço e gosto de beijo é presságio de amor... e que a nós venha o amor!

Valores

A vida de uma formiga dura de seis a dez semanas. Quanto vale a vida?
Acho hilário quando percebo alguém “endeusando” a vida. Gente que ostenta aquele discurso de: “Viva hoje como se fosse o ultimo dia.”, “Faça exercícios, não quer encurtar o maior bem: a vida!”, “blá blá blá”... ela é verdadeiramente importante quando se trata da NOSSA VIDA! Ou você nunca achou graça de uma morte bizarra? Nunca sentiu satisfação na morte de alguém que, para você, merecia o fim? Sim... essas coisas acontecem constantemente. Sua vida tem valor... para você. Essa é a resposta do questionamento a cima.
A morte é soberana!
Nada mais soberano que a morte. Afinal tudo gira em torno dela... inclusive a miserável VIDA. A morte nos prende ao medo, a crença, a sentença a decisão. A morte vem sorrateira e quando percebe-se a indesejada presença já é tarde! Anexado à morte estão às lágrimas, dores, ardores e amores. A morte pode tudo. A morte é tudo.
Até Deus está ligado a ela... Jesus teve que morrer para salvar os humanos. E afinal, sejamos francos o medo da morte intensifica a incógnita da fé!
Se os “endeusadores” da vida soubesses o valor da morte... não perderiam seu precioso tempo morrendo de forma categórica. Viva sua vida, do jeito que “der na telha” (expressão velha, mas deu na telha) não se preocupe com a morte ela é inevitável... SOBERANA! Afinal se a vida valesse tanto ela não terminaria em morte. Quanto vale a vida?
O valor da vida é a morte!

Poeta da letra feia


Sei matar e roubar.
Sei amar, desamar e malamar!
Sei mentir.
Minto sobre o mundo,
Sobre mim e
Sobre tudo.
Às vezes sou asqueroso
E com palavras benevolentes cuspo e mordo.
Tosco!
Morno!
Romântico
Moço.
Trindade e
Maldade.
Saudade...
Ê “Cumpadi”...
Sou sem ser...
Não sou.
Vou!
Vou à mercê
De palavras que nos tragam um amanhecer...
Alvorecer,
Renascer,
Entardecer...
Ser!
Sou.
Poeta...
Poeta da letra feia.

Condição de mulher (Conto)


Despedi-me dos meus colegas de trabalho, andei em direção ao meu carro... “NOSSA! Que loira linda!”, esse pensamento foi expresso por minha boca em palavras. Momento insano! Não sou um desses boçais que expõem as mulheres “recitando” “suaves” obscenidades.
De repente, percebi que a loira parou a uns quatro metros de mim e estava a encarar-me. Minha face que estava rubra derreteu-se de vergonha. O pior foi quando a percebi se aproximar. Rapidamente desativei o alarme, abria a porta e quando eu fui virar a chave... “Cunha!?” Ela sabia meu nome. Na hora meu coração veio à boca, meus olhos estatelaram-se e minha face derretida e rubra parecia esquentar. Como sabe meu nome? Macumba? Bruxaria? Uma dessas orações gritadas?
Como, eu não sei. Mas reconfigurei meu rosto, escondi
alguns dos muitos dos sentimentos, que me invadiram e cirandavam em meu peito, e a respondi: “Pois não!?”... “Não está reconhecendo-me? Sou eu, o José da escola secundária, jogávamos xadrez juntos...” Ele... ela continuou falando, mas não lembro o quê, pois meus pensamentos pararam. Quer dizer que José é a loira gostosa que me encantou há pouco!? Lembro-me de ter voltado meu olhar ao seu rosto novamente, ela falava sobre uma cirurgia, mas não prestei atenção. Gente, não pode ser o José! Ele virou mulher e uma muito linda! Logo entendi sua condição de existência... ele era uma mulher! E eu a aceitava. A conversa não teve futuro, pois eu ainda estava em estado de choque. Nós nos despedimos e ela se foi.
Virei à chave e prossegui para casa pensando. Contudo o foco do pensamento mudara. O que eu não entendi... e ainda não entendo é a condição de mulher da Mulher. Há pouco estive com um homem que virou mulher, mas nunca estive com uma mulher que é totalmente aceita como mulher.
Mulheres são: MÃES, companheiras [seja através de uma amizade ou relacionamento amoroso], amantes [e fazem isso muito bem, por sinal], profissionais, enfermeiras [muitas vezes sem saber exercer a profissão, usam seu instinto afetivo], etc. ... Elas são tudo isso, menos mulheres! O tempo passou e elas começaram a ocupar o espaço que outrora era destinado aos homens, mas isso não é suficiente!
A questão estava posta, mas onde se encontra o problema?
Em mim... em nós! Ainda há quem as submeta, muitas vezes inconscientemente, a um machismo dominador... quem disse que elas não sabem dirigir, que o homem é a cabeça do relacionamento, ou que elas possuem inteligência inferior ao gênero oposto, afinal, adianta esbanjar neurônios sem usá-los? Não!
O que é necessário é a alforria do grilhão que prende o ser a uma dimensão alienada e excludente. Todos são criaturas iguais. Que as mulheres sejam mulheres!

Autoria de Breno Callegari Freitas
Corrigido e revisado por
Josiane Callegari Freitas

Ultimas palavras (Conto)

Menina do Sorriso,
Ainda leio aqueles poemas de amor que escrevi sem saber o que fazia. Aqueles versinhos que fazia para te ver sorrir. Ainda escrevo poesias com sua foto ao lado da escrivaninha, confesso que não a olho muito, mas não consegui abdicar desse antigo ritual. Ah, camponesa dos cabelos dourados me deixaste desamparado indo embora sem deixar recado, e voltando ao seu interior pacato. Não te culpo minha bela, algumas lagartas não nasceram para voar. O erro foi meu em embriagar-te com meus versos e trazer-te ao meu casulo.
Nossa cama ainda está milimetricamente bagunçada, acho que naquela configuração seu corpo aparenta ainda estar conservado ali, como se estivesse de volta... volta pra casa, pra minha casa. Não sei se acreditará, mas o casulo parece um templo gigantesco feito para homenagear um deus de extrema grandeza e valor. Sabe que nunca gostei da arquitetura dessas igrejas antigas, dentro dela me sinto sozinho. Sozinho como uma lagarta dentro de um casulo construído para duas lagartas.
Em fim, não quero parecer desesperado, o que desejo realmente é poder contemplar a lua refletindo seu multidimensional brilho. E quando cansar de admirar suas formas embelezando a natureza gostaria de tocar-te como quem sente o macio da neve no cume de uma montanha que demorara dias para vencer a escalada. Tocar-te, fitar-te com os olhos e beijar-te, como um beija-flor sugando o néctar da primeira flor da estação. Por favor, volte enquanto ainda sua foto revitaliza o ambiente e eu ainda consiga escrever, pois caso contrário eu e tudo que eu tenho estamos fadados a morte.
 
OBS: Estou dormindo no sofá do casulo para conservar o estado da nossa cama. Não demore, pois estou morrendo de dor nas costas.

Herança Materna

Oitavo andar... Edifício mal cuidado.
Atrás da porta 823 repousa
O que de melhor para mim deixaram.
Ao abrir a porta
O breu silente assombrou meu equilíbrio.
Janelas fechadas com tábuas
Alastrava o que naquele lugar havia de sinistro.
No tapetinho de entrada sandálias...
Móveis cobertos por um pano branco
Acresciam um semblante de assassinato.
A minha cor facial no ímpeto do momento se modificou
Em um insight me toquei que minha herança não continha valor.
Decepção, dor, tristeza... um mix de emoção
Ela se foi sem lembrar de mim.
No momento cresceu no peito a sensação
De que valor nenhum possuí.
Erguendo a cabeça para me despedir da minha mediocridade
Reconheci, sobre a mesa, um livro velho e rasgado.
Eram sonetos de Florbela.
Logo percebi as intenções “dela”
Em deixar de herança, poesia.
E  são nesses versos se concretizam
O que minha mãe de melhor deixou
A forma de expressar em arte o amor.

Fome

Sentei a mesa.
O cheiro da comida me dava asco.
Estava acompanhado.
Na outra cadeira sentava-se a fome.
A fome me consumia.
Ela me comia...
E eu não queria a comida.
Olhei ao meu redor e haviam humanos gordos.
Gordos de ego.
Eu odeio o sabor do ego!
Pensei nos talheres,
Nas mesas, cadeiras,
Lâmpadas...
Mas eles não me excitavam.
A morte já tinha me devorado da cintura para baixo.
Nada nesse mundo me fazia feliz
A não ser minha tenra pele.
E eu a comi.
Como quem come por amor,
Como quem saboreia uma flor
COUVE-FLOR.
Minha pele, meus olhos...
Faltou a mão,
Largarei a caneta
E como se faz com a melhor parte
Comerei bem devagar.
Sim, a melhor parte do meu corpo são minhas
MÃOS.

Bárbara

Bárbara

Sou capitão do exército romano.
Entreguei minha vida a Cesar.
A partir de então não temo a morte
E não perco meu tempo com tolices
Como amor e os demais sentimentos.

Contudo, percebi meus sentidos esmiuçar-se
Quando um deslize cometi.

Era manhã dominical.
Eu liderando uma tropa de guerreiros,
Voltávamos para nossa pátria pela floresta.
Nesta mesma manhã
Havíamos nos consagrado vitoriosos
Em um duelo contra bárbaros vizinhos de fronteira.
Havíamos dizimado seu exército e seu povoado.
A maior parte dos soldados estavam feridos.
Na floresta os raios de sol transpassavam
As frestas não preenchidas pelas folhas que estavam na copa das arvores,
Acrescentando beleza as flores que amarelas
Estavam devido à estação.
Um fecho luminoso apontava um local no solo encoberto por folhas,
Fixei meu olhar naquele lugar.
Quando cheguei perto do dito local,
Uma mulher saltou de debaixo das folhas
Em direção ao meu cavalo
Que assustado empinou me derrubando no chão.
Habilmente imobilizei a moça
Que instantaneamente imobilizou meu coração.
Eu a levei como prisioneira,
Mas confesso que não consegui retirar meus olhos daqueles olhos.
Sua pele era alva, seus cabelos negros, altura mediana
E olhos que me diziam palavras hostis.
A noite caiu, levantamos acampamento.
Meus olhos fechados não evitavam que meus
Pensamentos girassem como uma criança hiperativa.
Ouvi um barulho do impacto entre metais,
Saí imediatamente da tenda para conferir...
Foi quando me deparei com a bela bárbara
Tentando livrar-se das correntes.
Meus olhos a fitaram por eternos minutos,
Meus pés começaram a mover-se.
Enquanto me aproximava,
A prisioneira proferia palavras em tons ríspidos
E em um dialeto que eu não compreendia...
Mesmo se compreendesse não causaria efeitos,
Pois estava me movendo guiado por seus lábios.
Minhas mãos seguraram firmemente em seus braços...
Meus lábios lentamente se aproximaram dos seus lábios...
Inevitavelmente a beijei.
Suas mãos acorrentadas tiraram minha couraça
E seu fôlego indiscreto ascendeu à centelha de desejo
Que guardado estava há anos.
Senti suas mãos deslizando por minha cintura
Discretamente como sombra de fumaça,
Pegou a chave que estava no meu coldre
E gatunamente se destrancou.
Senti que ela prolongou o beijo,
Mas de repente ela virou-se e fugiu.
Eu passei o restante da noite ali sentado
Aproveitando a faísca sentimental
Que ainda queimava em meu peito.
Contudo, o sol veio anunciando a manhã
E como um bom servo, vesti a couraça...
Despi-me dos sentimentos que ainda fumegavam
E segui meu rumo com minha tropa! 

O grisalho da face

Em uma das casuais visitas de amigos ouvi em um comentário, que soou preocupante, que meu rosto estava pálido. Eles não entendem que ao envelhecer todos adquirimos um sabor fúnebre de grisalho ao rosto, talvez não seja essa a dinâmica da vida, e sim da morte.

A cor da morte é o cinza. É vantajoso morrer em cinzas, pois as outras mortes não possuem beleza. Contudo, o fogo que abraça a matéria consegue influenciá-la com seu apimentado calor a entrar em uma lenta mutação... metamorfose de corpo, de cor, cheiro e de sabor. E quando o silente fogo envolve sensualmente a dita mutação suas cores variam entre o branco e extremo preto. Quando tudo for roubado daquele corpo, ele perde sua vida bem no ápice do êxtase. E assim o sedutor se apaga completando sua linda dança lúdica desaparecendo. A cor da morte é o cinza. 

Abastecendo a mochila com “nós”

Quando eu era criança, me encantava o ritual anual da compra das mochilas. Eu tinha apenas 9 anos quando em uma tarde quente minha vida mudou.

(Mãe) Olá querida, como passou na escola?
(Criança) Foi ruim mamãe!
(Mãe) Ruim? Por que minha filha?
(Criança) Pois conheci alguém triste.
(Mãe) Triste como minha filha?
(Criança) Alguém que não teve deus pra ajudar.
 (Mãe) Conte-me direito menina.

(Criança)
A tarde era de intenso calor
Eu ainda embriagada pelo sono
Lanchava no recreio.
Foi quando percebi alguém se aproximando
Era uma garotinha de idade semelhante a minha,
Que vestia uma bermuda jeans de elástico
E jaqueta pintadinha.
Além de vestir-se mal, parecia de fome um poço
Maquiado por um sorriso morno e não intenso.
Com a voz tremula pediu o resto do cereal que estava sobre a mesa
E num repente intuitivo de criança contemplei-a com os grãos.
A partir daí instaurou-se a conversa
Que durou o recreio que foi do tamanho de um verão.
Ela me disse que comida para ela era um problema
E me contara que estava um dia sem comer.
Eu então entrei em um dilema:
Existe a possibilidade de não comer por um dia e sobreviver?
Algo me dizia que era verdade,
E que daquela menina emanava sinceridade.
Depois daqueles momentos compartilhados
Voltei para casa com o coração contrariado,
Pois não entendo
Como deus lembra dos ricos, e esnoba de alguns “indignos”.

No outro dia presenteei a pequenina com minha mochila nova. E nunca mais desejei algo além do que eu realmente precisava, pois as vaidades são um banquete para quem tem fome de si. Eu prefiro degustar o amarelo sabor do nós!

Vítima





Toques

Toco-me com ardor.
Toco-me sem temor.
Toco-me por gostar
Toco-me para saborear.
A saliva gustativa escorre
Lentamente pelo seu corpo percorre...
E como quem imagina te tomo,
Num toque delirante nos somamos.
A realidade é relativa,
Pois nesse jogo tu és minha.
Mesmo não estando presente
Apalpo-te ardentemente...
E toco-me
Como quem te toca
Amo-te
Como quem pode realmente te amar.

Divindade do meu amor

Mesmo que sua divindade você renegue,
Eu a enxergo, ouço e sinto.
O brilho reluzente que emana da sua pele,
É a razão para o que no mundo tem-se de mais lindo.
Meu anjinho. Anjinho sem asas, anjinho medroso...
Vem que em meus braços te protejo do escuro.
Oh, anjinho sorridente e amoroso
Dou-te tudo que esguicha do meu peito... O que de mim é puro.
Não tenho o céu... E não prometerei as estrelas!
Mas dedico a ti meu amor, expresso nesse poema.

Os amigos

Tenho bons amigos.
Na verdade tenho os melhores.
Pois amizade verdadeira
Nasce, cresce e não morre.
E como um campo florescido
Exala cor e vitalidade,
Bons amigos
Dão surrealismo a inerte realidade.
Pois o que é a amizade
Além de um amor fraternal
Que nasce de um sorriso sem maldade
E perdura por uma vida de vaidade?
 Posso ficar velho para o mundo,
Mas sempre serei com eles um menino vagabundo!

Choro como menino



Em um desses dias, enquanto eu observava as estrelas
Eu ouvi sua voz doce por detrás do meu ombro a me chamar.
Estranho! Deve ser que a cabeça aceita,
Mas o coração ainda insiste em te amar.
Isso eu acho, pois te vejo toda vez que insisto em fechar meus olhos.
Mas não te reconstruo de forma corriqueira e normal.
Em meus sonhos és a brisa do outono
Que vem do norte trazendo a vida em pólen e refrescando o litoral.
Concebo-te também como orquídea
 Que como erva daninha
Toma-me o corpo e me enfeita com suas cores e beleza,
Obra rara da natureza!
Dádiva divina!
Sonho de amor, materializado em menina.
Sei que se foi... O adeus mal tragado ainda ecoa em meus ouvidos.
Meus olhos tristes se desviam do alvo
Pois minha meta, sem deixar o endereço,desviou-se do destino.
Não contente em ir embora, ainda deixou-me a chorar como um menino.

Parábola da fitinha vermelha (Conto)


Reza a lenda... Que num dia ensolarado os anjos cantavam ardentemente no céu, pois o criador passara sete dias trancado em seus aposentos criando. Ele já havia feito um universo e seres viventes em sete dias, qual será sua nova criação!? A euforia no céu era tão grande que até os anjos guerreiros cantavam de ansiedade no celestial coro, que reunido estava na porta da grande morada do poderoso. O boato correu rápido que até o ex-brilhante Diabo com sua trupe foi conferir o feito do bom velhinho. Lógico que não tiveram permissão para adentrar no resplandecente lugar, mas o velho astuto ripe resolveu sentar-se e acampar nos portões divinos.
As portas se abriram e em um “brado retumbante” O Barbudo todo poderoso sorridente disse: - Parem a cantoria! Abram os portões do paraíso e deixem o capeta entrar... Miguel, acompanhe Satanás e os seus agregados até o pátio principal da zona franca celestial. Agrupe também os anjos nas arquibancadas e traga os humanos que habitam a Terra... Irei me pronunciar e apresentar o futuro da humanidade.
Assim foi feito, os infernais ficaram sentadinhos no chão próximo à saída.  Os anjos lotaram as arquibancadas e como em um jogo do Flamengo, todos gritavam hinos venerando o grisalho patriarca. Os últimos a chegar foram Eva e Adão, Caim não apareceu... Sabe como é vida de fugitivo!
Fitando a platéia deus parecia ansioso, mas como é detentor da suprema sabedoria preferiu escolher as palavras certas para seu pronunciamento. Depois de alguns segundos olhando para o público que apreensivo esperava, disse:
- Senhora, Senhor, anjos e seres diabólicos... Apresento-lhes o “relacionamento”...
 E com suas mãos fartas tirou do bolso uma fitinha vermelha. As reações foram múltiplas. Os anjos como sempre deram glória a Deus e dançaram comemorando seu feitio. O diabo se derreteu em gargalhadas tentando menosprezar a sapiência do soberano, e os demônios assim como os anjos seguiram as emoções do seu mestre. Os humanos foram os últimos a manifestarem-se. Eva logo sorriu pensando em como aquela fitinha ficaria bem em seu braço, ou então, como ficaria linda prendendo seus ruivos cabelos. Adão agreste bocejou e pensou: - Senta que lá vem à história. E o primogênito dos humanos estava correto, pois logo em seguida o Grande completou:
- Prezados, o “relacionamento” é algo que nós, seres espirituais, não exerceremos da mesma forma que os humanos. O relacionamento celeste será fraterno e eterno. Aqui no céu, nós nos amaremos incondicionalmente e eternamente, assim como sempre fizemos. Contudo como os humanos pecaram e mereceram correção, que já está em vigor, eles estão vivendo no mundo sendo submetidos a dores, chagas e outras porcarias... No entanto, eu os amo! E por isso criei uma forma que quando somada ao amor será o pilar desta passagem pelas provações(TERRA).
Pois bem, o relacionamento nada mais é que essa fitinha. Onde os cônjuges seguram nas extremidades; ela servirá para uma completa harmonia da vida a dois. Com o “relacionamento” vocês aprenderão a usar o amor além do sexo e da procriação; esse amor será limpo, coeso, firme e acima de tudo durará a vida toda. Mas para isso as metades têm que ser zelosas, pois a cada mácula no relacionamento a fitinha encurta um pedacinho... E se não houver a preocupação necessária ela ficará tão pequena que será insustentável segurá-la. Por isso passando pela saúde ou pela doença, pobreza ou riqueza, vitória ou derrota... Sempre ame seu parceiro como a si mesmo e cuide dele como se fosse único, pois esta fitinha não é facilmente encontrada, ela só é adquirida pelo “PURO” e “VERDADEIRO” AMOR.
Depois desse pronunciamento a vida dos humanos mudou. Agora eles conseguiam viver em dois corpos usando apenas um coração. O problema é que as pessoas não receberam o manual celeste para utilizar o santo objeto e na atualidade faz-se ao léu. E quem alcançar este escrito saiba que o segredo dos relacionamentos é não deixar a fitinha encurtar, pois uma vez curta e insustentável nunca mais ela se restituirá. Assim sendo, não se descuide do que está em suas mãos... Pois o amor é igual à água: quando seguro na palma da mão, o mínimo descuido o lança por terra... “E não adianta chorar sobre o leite derramado”.
Autoria de Breno Callegari Freitas
Corrigido e revisado por Josiane Callegari Freitas

Palavras póstumas


O corpo inóspito parecia descansar em sono silente.
As cores fúnebres velavam o cadáver que ali jazia.
Uma coroa de cravos homenageava solenemente,
O ser ex-crente que ali morria.
Naquela sala cinza, onde declinou o inverno,
Sussurros mudos levaram mais uma alma para o inferno.
Palavras rebuscadas transcreviam a sangue nas paredes
“o silêncio é o pai da palavra”...
E como uma gota d’água mata a sede
O medo a mais uma vítima sagrava!
Assassinato cruel de poltrona como sede
Assentado esperava a sorte...
O destino astuto o confidenciou a morte.
Tratava-se de um ex-poeta, servidor público... careta
Que largara o papel e a caneta
Para morrer com o fardo de mal viver.
Morte preanunciada pelo assassino
Que executou tudo de forma sucinta
E morreu consecutivamente sem sofrer.
Auto-analisado vejo o sangue que de minha mão escorre
E sentado sinto-me ferido como quem morre.
Descansado nessa poltrona fui assassinado
Morto por mim em covardia díspar.
Ato fruto de um coração faiscado
De excesso de tempo e falta do amar.

O sol


Acordo antes do clarear do dia
Sem tomar café dirijo-me ao emprego.
Trabalho em cada empresa doze horas... uma vida!
No inicio do expediente para a lua cansada eu aceno.
Tenho orgulho do meu ofício, nele sinto-me resplandecer.
Gostaria de continuar a conversar...
Mas com licença,
Pois agora tenho que amanhecer.

O grito de adeus

Eu cansei de assistir seu show sentado.

Quero ocultar-me em pé.
Sou um cão submisso revoltado,
Apaixonado por uma mulher.
Gritei latidos dissonantes de uma melodia bemol,
Vaguei por oceanos em busca de um farol.
Aprendi a cantar como arcanjos no ócio
E cantando me converti ao cio.
Suas luzes vermelhas,
Ofuscam o brilho do meu cabaré.
A vida que em si carregas
Tirou o chão do meu pé.

Saudade do meu Nordeste


Da janela do meu arranha-céu
Vejo o Tietê chorar.
O tom cinza do ar.
E as embalagens do artificial mel.
-
Vejo as frutas forçadas a amadurecer,
As crianças forçadas a amadurecer,
A morte como maçã amadurecer,
A vida pelos anos desfalecer!
-
Saudades mil do meu Nordeste
Terra santa do cabra da peste.
Lugar sereno e encantador
Detentor do meu sorriso e amor.
-
Saudades dos banhos no Paraguaçu
Noites ritmadas ao som do maracatu,
Samba de roda no terreiro.
Há! Como bate forte no meu peito.
-
Bate forte a falta de em ti estar,
Pois em mim nunca sairá
As terras celestes
Do meu Nordeste! 

Livre arbítrio

O livre arbítrio arbitrário

Que no ventre paterno
Foi herdado...
É o mesmo direito
Que me impede de morrer
Sem a vida perder.
Contudo na poesia
Essa lei eu transgrido
Percorro a simetria...
Me faço transmitido.
Morro e sobrevivo
Nesse jogo de polícia
Sou bandido.
Assim eu vivo.
Livre sem arbítrio!

Fim do poço


Não se apeteça amor!
O poço termina numa escada!
Sei que é da queda que brota a dor.
E suas lágrimas são setas apontadas
Para um caminho inverso ao sofrimento.
Caminho do vento!
Um caminho de álamos na primavera.
E como as folhas secas no chão
Que o vento leva.
Leve também do seu peito a desilusão!

Calei sua boca


Calar sua boca é meu desejo...
Adoro ouvir sua voz anja minha,
Mas prefiro o brilho da sua boca linda
Depois que eu calar-te com um beijo.
-
Seu sorriso são palavras lindas de amor.
Que me envolvem num eterno romance,
Alfabetizando minha dor
Colocando a felicidade ao meu alcance!
-
Calaria sua boca com versos em cor...
Ou te presentearia com as estrelas que daqui almejo
Poderia calar-te de muitas formas, amor...
Mais ainda prefiro o fazer com um beijo!! 

Cachos


Fiz-me gota para navegar pelas ondas de seu cabelo.
Sendo chuva, desvendei sua forma deslizando por seus traços.
Abri meu peito para receber seu selo.
Tornei-me sombra para observar seus passos.

Sentindo o amor desejei teus lábios,
E a solidão se foi como folha no outono.
Implorei, dentre a aquarela, sua cor aos pássaros,
Que trouxeram um cacho do seu cabelo como bônus.

Desfazendo o selo, guardei-o no peito.
Ao lado dos mais belos sonhos e devaneios.
Vem você navegar comigo...
Que juntos o amor alcançaremos. 

Sou melhor como poeta do que como homem... o pior é que sou um medíocre poeta!

Quem sou eu

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Louco, alucinado, psicodélico... ou apenas delirante! Transpondo as flores dos meus sentimentos em versos para construir o seu Delírium.
Breno Callegari Freitas. Tecnologia do Blogger.

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Delírio é: "Estado mórbido que leva o paciente a proferir palavras sem nexo."... Delirium é onde se encontra uma realidade poética alternativa, possibilitando galgar por caminhos desconhecidos até então!

De Lírios

De Lírios
"Observando os resplandecentes lírios, vivo de-lírios..."

Os lírios do Delirium

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Escritor

"Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira." ~ Drummond ~
Estendo a mão, e apanho lírios...
Flores que nasceram por descuido
Do coração que dolorido
Te regou em delírio!