Espaços vazios
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Dias de frio
Espaços vazios
Sem versos
Para me acordar de manhã.
Sem beijos na testa
Cai a chuva na janela
Molhando o chão do quarto
O rosto ...
2 semanas atrás
Foi uma epopeia pelo obscuro da vida
Certas coisas eu não entendo!
Da janela daquele arranha céu eu via a vida urbana.
Formigas hiperativas e ouriçadas traçando caminhos tortuosos no chão é sinal de chuva.
A vida de uma formiga dura de seis a dez semanas. Quanto vale a vida?
Sei matar e roubar.
Sei amar, desamar e malamar!
Sei mentir.
Minto sobre o mundo,
Sobre mim e
Sobre tudo.
Às vezes sou asqueroso
E com palavras benevolentes cuspo e mordo.
Tosco!
Morno!
Romântico
Moço.
Trindade e
Maldade.
Saudade...
Ê “Cumpadi”...
Sou sem ser...
Não sou.
Vou!
Vou à mercê
De palavras que nos tragam um amanhecer...
Alvorecer,
Renascer,
Entardecer...
Ser!
Sou.
Poeta...
Poeta da letra feia.
Oitavo andar... Edifício mal cuidado.
Atrás da porta 823 repousa
O que de melhor para mim deixaram.
Ao abrir a porta
O breu silente assombrou meu equilíbrio.
Janelas fechadas com tábuas
Alastrava o que naquele lugar havia de sinistro.
No tapetinho de entrada sandálias...
Móveis cobertos por um pano branco
Acresciam um semblante de assassinato.
A minha cor facial no ímpeto do momento se modificou
Em um insight me toquei que minha herança não continha valor.
Decepção, dor, tristeza... um mix de emoção
Ela se foi sem lembrar de mim.
No momento cresceu no peito a sensação
De que valor nenhum possuí.
Erguendo a cabeça para me despedir da minha mediocridade
Reconheci, sobre a mesa, um livro velho e rasgado.
Eram sonetos de Florbela.
Logo percebi as intenções “dela”
Em deixar de herança, poesia.
E são nesses versos se concretizam
O que minha mãe de melhor deixou
A forma de expressar em arte o amor.
Sentei a mesa.
Bárbara
Sou capitão do exército romano.
Entreguei minha vida a Cesar.
A partir de então não temo a morte
E não perco meu tempo com tolices
Como amor e os demais sentimentos.
Contudo, percebi meus sentidos esmiuçar-se
Quando um deslize cometi.
Era manhã dominical.
Eu liderando uma tropa de guerreiros,
Voltávamos para nossa pátria pela floresta.
Nesta mesma manhã
Havíamos nos consagrado vitoriosos
Em um duelo contra bárbaros vizinhos de fronteira.
Havíamos dizimado seu exército e seu povoado.
A maior parte dos soldados estavam feridos.
Na floresta os raios de sol transpassavam
As frestas não preenchidas pelas folhas que estavam na copa das arvores,
Acrescentando beleza as flores que amarelas
Estavam devido à estação.
Um fecho luminoso apontava um local no solo encoberto por folhas,
Fixei meu olhar naquele lugar.
Quando cheguei perto do dito local,
Uma mulher saltou de debaixo das folhas
Em direção ao meu cavalo
Que assustado empinou me derrubando no chão.
Habilmente imobilizei a moça
Que instantaneamente imobilizou meu coração.
Eu a levei como prisioneira,
Mas confesso que não consegui retirar meus olhos daqueles olhos.
Sua pele era alva, seus cabelos negros, altura mediana
E olhos que me diziam palavras hostis.
A noite caiu, levantamos acampamento.
Meus olhos fechados não evitavam que meus
Pensamentos girassem como uma criança hiperativa.
Ouvi um barulho do impacto entre metais,
Saí imediatamente da tenda para conferir...
Foi quando me deparei com a bela bárbara
Tentando livrar-se das correntes.
Meus olhos a fitaram por eternos minutos,
Meus pés começaram a mover-se.
Enquanto me aproximava,
A prisioneira proferia palavras em tons ríspidos
E em um dialeto que eu não compreendia...
Mesmo se compreendesse não causaria efeitos,
Pois estava me movendo guiado por seus lábios.
Minhas mãos seguraram firmemente em seus braços...
Meus lábios lentamente se aproximaram dos seus lábios...
Inevitavelmente a beijei.
Suas mãos acorrentadas tiraram minha couraça
E seu fôlego indiscreto ascendeu à centelha de desejo
Que guardado estava há anos.
Senti suas mãos deslizando por minha cintura
Discretamente como sombra de fumaça,
Pegou a chave que estava no meu coldre
E gatunamente se destrancou.
Senti que ela prolongou o beijo,
Mas de repente ela virou-se e fugiu.
Eu passei o restante da noite ali sentado
Aproveitando a faísca sentimental
Que ainda queimava em meu peito.
Contudo, o sol veio anunciando a manhã
E como um bom servo, vesti a couraça...
Despi-me dos sentimentos que ainda fumegavam
E segui meu rumo com minha tropa!
Em uma das casuais visitas de amigos ouvi em um comentário, que soou preocupante, que meu rosto estava pálido. Eles não entendem que ao envelhecer todos adquirimos um sabor fúnebre de grisalho ao rosto, talvez não seja essa a dinâmica da vida, e sim da morte.
A cor da morte é o cinza. É vantajoso morrer em cinzas, pois as outras mortes não possuem beleza. Contudo, o fogo que abraça a matéria consegue influenciá-la com seu apimentado calor a entrar em uma lenta mutação... metamorfose de corpo, de cor, cheiro e de sabor. E quando o silente fogo envolve sensualmente a dita mutação suas cores variam entre o branco e extremo preto. Quando tudo for roubado daquele corpo, ele perde sua vida bem no ápice do êxtase. E assim o sedutor se apaga completando sua linda dança lúdica desaparecendo. A cor da morte é o cinza.
Quando eu era criança, me encantava o ritual anual da compra das mochilas. Eu tinha apenas 9 anos quando em uma tarde quente minha vida mudou.
(Mãe) Olá querida, como passou na escola?
(Criança) Foi ruim mamãe!
(Mãe) Ruim? Por que minha filha?
(Criança) Pois conheci alguém triste.
(Mãe) Triste como minha filha?
(Criança) Alguém que não teve deus pra ajudar.
(Mãe) Conte-me direito menina.
(Criança)
A tarde era de intenso calor
Eu ainda embriagada pelo sono
Lanchava no recreio.
Foi quando percebi alguém se aproximando
Era uma garotinha de idade semelhante a minha,
Que vestia uma bermuda jeans de elástico
E jaqueta pintadinha.
Além de vestir-se mal, parecia de fome um poço
Maquiado por um sorriso morno e não intenso.
Com a voz tremula pediu o resto do cereal que estava sobre a mesa
E num repente intuitivo de criança contemplei-a com os grãos.
A partir daí instaurou-se a conversa
Que durou o recreio que foi do tamanho de um verão.
Ela me disse que comida para ela era um problema
E me contara que estava um dia sem comer.
Eu então entrei em um dilema:
Existe a possibilidade de não comer por um dia e sobreviver?
Algo me dizia que era verdade,
E que daquela menina emanava sinceridade.
Depois daqueles momentos compartilhados
Voltei para casa com o coração contrariado,
Pois não entendo
Como deus lembra dos ricos, e esnoba de alguns “indignos”.
No outro dia presenteei a pequenina com minha mochila nova. E nunca mais desejei algo além do que eu realmente precisava, pois as vaidades são um banquete para quem tem fome de si. Eu prefiro degustar o amarelo sabor do nós!
Toco-me com ardor.
Toco-me sem temor.
Toco-me por gostar
Toco-me para saborear.
A saliva gustativa escorre
Lentamente pelo seu corpo percorre...
E como quem imagina te tomo,
Num toque delirante nos somamos.
A realidade é relativa,
Pois nesse jogo tu és minha.
Mesmo não estando presente
Apalpo-te ardentemente...
E toco-me
Como quem te toca
Amo-te
Como quem pode realmente te amar.
Mesmo que sua divindade você renegue,
Tenho bons amigos.
Eu cansei de assistir seu show sentado.
O livre arbítrio arbitrário
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