terça-feira, 21 de agosto de 2012

A tal felicidade

Chega a ser assustador a dinâmica da felicidade.
Uns com quase nada são felizes
E outros, mesmo com abundância, padecem na infelicidade.
O dinheiro que orna pescoços e dedos com joias, volta e meia, arranca um sorriso.
Contudo nada mais estimulador (de sorrisos) que um prato de comida destinado com carinho a um conhecido faminto.
Ah, sei lá. Acho que a felicidade está ligada a simplicidade.
Dormir é simples.
Comer é simples.
Amar é simples.
Admirar o sol poente, com a brisa úmida acariciando a face... Ahhh, perfeito! E simples.
Talvez a felicidade esteja dentro de um frasco tampado no fundo de nossos desejos.
Basta abri-lo e aceitar-la com o que se têm, e como se é.
Mudar, transformar, acrescentar, distorcer, doar-se integralmente... pode ser complexo demais para uma felicidade tão simples.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Amo a noite


A reconfortante escuridão do céu noturno me toma em prazer.
As estrelas, em milhares, cantando uma silente melodia reluzente.
Cingem de sagrado o negror orbital celeste.
Sardas cintilantes são as estrelas.
Lá no alto do negrume a Lua é a protagonista.
Onde as sardas, cantantes e luzidas brindam melodicamente sua beleza de amante.
Minha amante!
Descrita e recitada por mim noites a fio.

Recitais e serenatas românticas a deusa de brilho impar.
Lua como tu és amada por este comum humano!
Escuridão e sardinhas fulgentes também as amo.
Mas o que me toma por gosto é o silêncio.
O silêncio é a mandraca do viver.
O silêncio é o canto das estrelas e o ressoar das ondas do breu.
A resposta da Lua aos meus suspiros e pedidos é o silêncio.
O silêncio é paridor:
De sonhos,
De esperança,
De conforto,
De ideias,
De beijos,
De escárnios,
Da voz.
O silêncio é o nada.
E o nada é a possibilidade da existência.
Se pode, logo existe!

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Bruxaria

Saia da minha presença sua bruxa de mãos rápidas.
Não te quero por de baixo da minha pele.
Pensa que não sei que és tu que fazes meu coração palpitar?
Teu feitiço é único (macumba singular).
Arrebatou-me desta vida,
Transformou-me em homem comum (edição popular).
Tirou minha vontade de ler;
Escrever já não consigo;
Pensar não é mais comigo.
Só consigo me rastejar,
Admirar seus olhos negros de bruxa virginal,
Seus cabelos loiros de ouros feitiços e
Sua pele alva, com pouca vida, e muito charme.
Ah bruxa, por que me amaldiçoas-te
A ser teu escravo?
Escravo de encanto (encantado apaixonado).
E por essas ruelas de amor, amarrado vou.
Refém de teu afago,
Sedento do teu amor!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Dialética da minha poesia (Borboleta)


A arte de muitos é baseada em firulas literárias complexas.
Eu, porém, considero uma arte nobre quando esta é dotada de complexos sentimentos.
Palavras são apenas palavras.
Entende-se melhor analisando a metamorfose da lagarta que enoja a muitos.
E quando se recolhe em mutação
Em poucas horas se mostra um dos seres mais exuberantes e belos...
Borboleta!
O que é uma borboleta, a não ser uma lagarta com asas?
Assim se dá minha poesia.
Palavras comuns (lagarta) que transcrevem complexos sentimentos (asas).

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A paixão em sonho

É tão bom se entregar.
Fechar os olhos e mergulhado em beijos afáveis esquecer-se do inesquecível.
Abraçar como se o corpo ali apertado fosse à única razão vital existente.
É surreal olhar
Dento de outros olhos e alcançar o brilho de uma paixão poente.
Olhar
Sorrisos que se formam depois de longos beijos...
Sorrisos que preanunciam outros longos e vorazes beijos.
É prazeroso
Beijar aquela mão com o carinho que um pai beija a barriga da esposa grávida
E depois sorrir, como uma trombeta que anuncia a presença real, anunciando o próximo beijo.
É saboroso folhear livros de sonetos amorosos antigos em busca de um que traduza tudo aquilo entalado em uma garganta seca de palavras, mas molhada por beijos em potencial.
É tão extasiante ficar com o perfume em seus braços
E dormir buscando o aroma.
Aroma confortador que com o alento da paixão nos deita em um sono regado por sonhos que são a extensão deste sentimento aqui transcrito.
Sonho com abraços e beijos
Outros apenas com a voz.
Sonhos de uma vida pela frente
Regada por paixão e paz.
Sonho que um dia nunca acorde,
E se acordar, que eu jamais
Deixe que a noite volte
Para contigo sonhar um pouco mais.

Coração Frio

Tem gente que diz: “Vai devagar com o coração menino!”.
Responde-me, de quem é o coração?
Conselheiros hipócritas e mal amados,
Quando eu precisar de ajuda farei autoajuda.
Na verdade, até que entendo a intenção.
Na certa eles não conhecem o meu tipo.
Não sabem daquele probleminha!
Frieza.
O homem frio sofre consigo mesmo.
Ele não precisa de outra pessoa para ser feliz.
Mas nem por isso é feliz,
Pois sua felicidade se acaba por si.
Bem aventurado aquele que sofre de amor,
Pois malditos somos os que não conseguem amar.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Metamórfico e egocêntrico

Sou metamórfico por natureza. 
Mudo para satisfazer meu ego.
Pois a esbelta dureza
Dos meus sentimentos me fizeram cego.
Porque me tomas com um pedido de extrema indelicadeza?
Não mudo por você, pois isso não é amor!
E tenho do céu a certeza
Que do seu jardim sentimental não brotaria uma sequer flor.
Se te magoa minha demência
Eu te permito a ir por outro caminho
Procurando entre os seus espinhos...
- Malditos e dolorosos espinhos! -
...Flores com minha essência!

sábado, 7 de julho de 2012

Caminhos internos


O oculto me fere quando, por análise, não o alumio.
E o inerte me ocupa quando, por conta própria, o faço andar.
Nada me parece impossível.
Perante o espelho perfeito sou.
Mas quando me identifico equivocado sofro enojado por minhas máculas.
A perfeição talvez seja a maior utopia inventada por ninguém.
E a utopia é a melhor forma de construir um sonho.
Por almejar a perfeição, talvez a alcance,
Pois foi almejando a felicidade
Que fui feliz.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Fim de noite, poucas palavras e alguns sentimentos


Gostaria que rolasse.
Assim como rolam as lágrimas pela impenetrável epiderme facial,
Ou então, como objetos ovais sobrepostos a uma estrutura plana.

Desejo que aconteça.
Como os relâmpagos em noites atormentadas por tempestades barulhentas.
Da mesma forma que nascem os “pés de mato” dentre as fendas do meio fio.

Simplesmente
Eu preciso de você.
Eu preciso do nosso amor.
Seja lá quem for você
Seja lá o que for esse amor!

Verdes e celestes.


Meu corpo esvaído de senso crítico
Inerte admira a verdejança do teu olhar.
E atento a silente melodia que ecoa de teus cachos
Componho, apenas a pulso, um poema.

Como pode ser tão intenso seu feitiço
Sendo você uma criança celestial?
De onde vem o verde desta suave voz
Transposta por teus olhos?

Abraça-me?
Abraça-me agora, pois do contrário cairei.
E toca-me nesta hora.
Menina te amo... agora te amo!
Assim como, de momento, nunca amei.

Sei que nada posso oferecer.
Se não sabia disso, o faça agora.
Na verdade, de nobre este poeta só tem sentidos/sentimentos
Escrito nestas, e em outras linhas,
Mesmo que pouco dure.
Por isso acredite:
Eu te amo... agora te amo!
Assim como, por um momento nunca amei.

Parteiro pecador

Senhores desculpem-me, pois pequei!
Não consegui transfigurá-la.
Ela nasceu assim.
E por covardia deste poeta permanecerá deste modo!
Oras cabe à parteira,
Decidir arrancar um membro da criança
Por julgar deformidade?
Não!
Por isso julgue-me e punam-me,
Mas mais vale o que de mim provém de fluxo natural
Do que o forjado em sentimentos nunca

Parteiro pecador

Senhores desculpem-me, pois pequei!
Não consegui transfigurá-la.
Ela nasceu assim.
E por covardia deste poeta permanecerá deste modo!
Oras, cabe à parteira
Decidir arrancar um membro da criança
Por julgar deformidade?
Não!
Por isso julgue-me e punam-me,
No entanto mais vale o que de mim é natural
Do que o forjado em sentimentos nunca assimilados.

sábado, 30 de junho de 2012

Vendo de baixo


Decorei com vasos floridos a porta na intenção de transforma-la em janela.
E cansando de cansar,
Deitei no chão para observar quem passava.
Descobri que o Padre usa um Nike branco,
E que a mulher do açougueiro tinha um dedo a menos.
Empolgado a ousar
Virei de barriga para o céu
E lá de baixo observei as nuvens, que pareciam ainda mais distantes.
Senti-me sob guarida.
Percebi que o chão não é alvo constante do olhar das pessoas,
Assim posso observar sem ser percebido.
O lugar certo. O melhor lugar
Para um maluco poeta criar, observar e sonhar.
Agora afirmo, sem por jeito hesitar:
Tolo é aquele que acredita
Que o que vem de baixo não machuca.

Tapeçaria d’versos

Meu tapete não é caro nem raro
Mas nele guardo a poeira de toda uma vida.
Não é trabalhado em linho fino
Contudo detém a moldura exata dos meus pés.
Em fim
O valor desta história não pode ser descrita pela crítica
Assim como não posso contestar o padrão utilizado para o
BELO.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Um problema

Como um mísero riacho
Que serpenteando agilmente pelo mato se vai,
A vida passou.
E sendo insensato, em dobras, descobri amor...
Amor que passou por mim várias vezes
Em saias diferentes ou em calças jeans.
Amor de sorriso resplandecente
Ou de olhar tão fundo... que perdido não encontrei o fim.
Já amei rapidamente
E em alguns casos cansei de amar!
O grande problema,
Talvez comigo
Ou
Quem sabe com o próprio amor,
É que só o compreendo
Quando ele por fim
Torna a me abandonar!

Poesia em suma

Quando ele escreve seus versinhos
Uma bomba emotiva explode.
E quando o lê em voz alta
O sentimento de utilidade ecoa.
Os transeuntes que o escutam recitar
Morrem de rir do jovem que se sente poeta,
E com suas miseras riminhas
Gesticula interpretando e vociferando o poema.

Assim é a arte da poesia.
Assim é a arte do poeta.
As rimas mais exuberantes perdem o sentido quando não sentidas,
E o sentimento quando transcrito,
Atingindo a uma alma que seja,
Esse sim provém de dentro de um verdadeiro poeta.

terça-feira, 12 de junho de 2012

O tempo e as virtudes



Enquanto muito é pedido
Oferto o necessário!
Se distribuir tudo aquilo que tenho
Aos porcos dei as flores que semeei com carinho e cuidado.
Meu jardim é exuberante,
Pois dediquei meu tempo a cultivá-lo.
Não questione minha bondade,
Ela ainda é um botão não abrochado.
Quando precisar de cor e perfume,
Plante uma semente...
Dedique-se de coração
E seja paciente,
Assim serás muito bem recompensado.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Ultimo poema para você

Foi uma epopeia pelo obscuro da vida
Quando te perdi em meio à tempestade sentimental
Que abalava minha já deficiente forma de raciocínio.
E como um andarilho que por nada procura
Vaguei só, por uma multidão de transeuntes enérgicos.
Ali todos me conheciam e cumprimentavam-me,
Eu estático lembrava-me do seu repentino desaparecimento
Esquecendo-me do objetivo, esquecendo não! Eu não o conhecia.
Vendo que ali era a escada de acesso a loucura
Decidi abrir mão de amar-te para ressuscitar o “eu”
Que soterrado estava adormecido no profundo do meu intelecto.
Ele estava lá dês da sua chegada amor... EX-AMOR!
Agora sendo eu, preciso aprender a escrever e sentir outra coisa a não ser você!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Senso quase comum

Certas coisas eu não entendo!
Por exemplo:
Por que Maria é o par perfeito de João...
Não deveria ser o de José, ué?!
Também não alcanço
A forma criancionista de pensar de Clarisse Lispector
E algo me diz que perco muito com isso.
Não compreendo porque o ser poeta humano
Entra em estado defensivo quando questionado
Seu nível de mediocridade.
Não entendo o vazio humano,
Tão grande... tão plural... tão doloroso!
Por não saber, digo que é espiritual.
Não alcanço a forma de pensar dos cachorrinhos,
Fiéis a um dono que o mantém em cativeiro.
(não compreendo os homens que se detém em cativeiros.)
Agora o que eu realmente não entendo:
É o silêncio
Que soa como valsa
Na troca de turno dos grandes firmamentos.
Tão silente e tão harmônico.
Como um som colorido para os surdos.

terça-feira, 27 de março de 2012

Reflexo urbano

Da janela daquele arranha céu eu via a vida urbana.
Espelhos que serviam como janelas,
E Janelas que serviam como espelhos...

Velhos que davam conselhos a jovens,
E jovens que apenas ouviam velhos falando...
Pra que conselhos?

Nas bancas expostos havia livros de poesia surrealista,
Lógico que não era para os velhos (velhos buscam salvação)
E também não era para os jovens! (jovens buscam excitação).
E tão pouco para mim... (Não sou chegado a vales obscuros de medo onde caminha a dor.)

Os velhos, os jovens e os poemas eram a cidade.
A cidade era o arranha céu que também era um poema surrealista.
E lá da janela, que era espelhada, percebi que o reflexo da cidade ali manifestado era o meu!

terça-feira, 20 de março de 2012

Presságio II

Formigas hiperativas e ouriçadas traçando caminhos tortuosos no chão é sinal de chuva.
Velhinhas no ponto de ônibus com guarda-chuvas... significa que além das formiguinhas estarem certas você chegou na hora certa, lá vem o ônibus. Afinal velhas senhoras sempre sabem os horários do maldito meio de transporte dos pobres urbanos.
O sino da igreja badala anunciando que é chagada a hora da “ave maria”. As velhinhas se benzem beatamente... as formigas se recolhem aos seus buraquinhos de insignificância, os guarda-chuvas se abrem, o ônibus chega e a chuva desce brincante escorregando pelo chão e transformando em lama o caminho deixado pelas formigas... agora é lama o que outrora foi presságio.

Presságio

Formigas hiperativas e ouriçadas traçando caminhos tortuosos no chão é sinal de chuva.
Velhinhas no ponto de ônibus com guarda-chuvas... significa que além das formiguinhas estarem certas você chegou na hora certa, lá vem o ônibus. Afinal velhas senhoras sempre sabem os horários do maldito meio de transporte dos pobres urbanos.
Agora, aquele sorriso afetuoso com cheiro de abraço e gosto de beijo é presságio de amor... e que a nós venha o amor!

sábado, 17 de março de 2012

Valores

A vida de uma formiga dura de seis a dez semanas. Quanto vale a vida?
Acho hilário quando percebo alguém “endeusando” a vida. Gente que ostenta aquele discurso de: “Viva hoje como se fosse o ultimo dia.”, “Faça exercícios, não quer encurtar o maior bem: a vida!”, “blá blá blá”... ela é verdadeiramente importante quando se trata da NOSSA VIDA! Ou você nunca achou graça de uma morte bizarra? Nunca sentiu satisfação na morte de alguém que, para você, merecia o fim? Sim... essas coisas acontecem constantemente. Sua vida tem valor... para você. Essa é a resposta do questionamento a cima.
A morte é soberana!
Nada mais soberano que a morte. Afinal tudo gira em torno dela... inclusive a miserável VIDA. A morte nos prende ao medo, a crença, a sentença a decisão. A morte vem sorrateira e quando percebe-se a indesejada presença já é tarde! Anexado à morte estão às lágrimas, dores, ardores e amores. A morte pode tudo. A morte é tudo.
Até Deus está ligado a ela... Jesus teve que morrer para salvar os humanos. E afinal, sejamos francos o medo da morte intensifica a incógnita da fé!
Se os “endeusadores” da vida soubesses o valor da morte... não perderiam seu precioso tempo morrendo de forma categórica. Viva sua vida, do jeito que “der na telha” (expressão velha, mas deu na telha) não se preocupe com a morte ela é inevitável... SOBERANA! Afinal se a vida valesse tanto ela não terminaria em morte. Quanto vale a vida?
O valor da vida é a morte!

segunda-feira, 12 de março de 2012

Poeta da letra feia


Sei matar e roubar.
Sei amar, desamar e malamar!
Sei mentir.
Minto sobre o mundo,
Sobre mim e
Sobre tudo.
Às vezes sou asqueroso
E com palavras benevolentes cuspo e mordo.
Tosco!
Morno!
Romântico
Moço.
Trindade e
Maldade.
Saudade...
Ê “Cumpadi”...
Sou sem ser...
Não sou.
Vou!
Vou à mercê
De palavras que nos tragam um amanhecer...
Alvorecer,
Renascer,
Entardecer...
Ser!
Sou.
Poeta...
Poeta da letra feia.

sábado, 10 de março de 2012

Condição de mulher (Conto)


Despedi-me dos meus colegas de trabalho, andei em direção ao meu carro... “NOSSA! Que loira linda!”, esse pensamento foi expresso por minha boca em palavras. Momento insano! Não sou um desses boçais que expõem as mulheres “recitando” “suaves” obscenidades.
De repente, percebi que a loira parou a uns quatro metros de mim e estava a encarar-me. Minha face que estava rubra derreteu-se de vergonha. O pior foi quando a percebi se aproximar. Rapidamente desativei o alarme, abria a porta e quando eu fui virar a chave... “Cunha!?” Ela sabia meu nome. Na hora meu coração veio à boca, meus olhos estatelaram-se e minha face derretida e rubra parecia esquentar. Como sabe meu nome? Macumba? Bruxaria? Uma dessas orações gritadas?
Como, eu não sei. Mas reconfigurei meu rosto, escondi
alguns dos muitos dos sentimentos, que me invadiram e cirandavam em meu peito, e a respondi: “Pois não!?”... “Não está reconhecendo-me? Sou eu, o José da escola secundária, jogávamos xadrez juntos...” Ele... ela continuou falando, mas não lembro o quê, pois meus pensamentos pararam. Quer dizer que José é a loira gostosa que me encantou há pouco!? Lembro-me de ter voltado meu olhar ao seu rosto novamente, ela falava sobre uma cirurgia, mas não prestei atenção. Gente, não pode ser o José! Ele virou mulher e uma muito linda! Logo entendi sua condição de existência... ele era uma mulher! E eu a aceitava. A conversa não teve futuro, pois eu ainda estava em estado de choque. Nós nos despedimos e ela se foi.
Virei à chave e prossegui para casa pensando. Contudo o foco do pensamento mudara. O que eu não entendi... e ainda não entendo é a condição de mulher da Mulher. Há pouco estive com um homem que virou mulher, mas nunca estive com uma mulher que é totalmente aceita como mulher.
Mulheres são: MÃES, companheiras [seja através de uma amizade ou relacionamento amoroso], amantes [e fazem isso muito bem, por sinal], profissionais, enfermeiras [muitas vezes sem saber exercer a profissão, usam seu instinto afetivo], etc. ... Elas são tudo isso, menos mulheres! O tempo passou e elas começaram a ocupar o espaço que outrora era destinado aos homens, mas isso não é suficiente!
A questão estava posta, mas onde se encontra o problema?
Em mim... em nós! Ainda há quem as submeta, muitas vezes inconscientemente, a um machismo dominador... quem disse que elas não sabem dirigir, que o homem é a cabeça do relacionamento, ou que elas possuem inteligência inferior ao gênero oposto, afinal, adianta esbanjar neurônios sem usá-los? Não!
O que é necessário é a alforria do grilhão que prende o ser a uma dimensão alienada e excludente. Todos são criaturas iguais. Que as mulheres sejam mulheres!

Autoria de Breno Callegari Freitas
Corrigido e revisado por
Josiane Callegari Freitas

domingo, 4 de março de 2012

Ultimas palavras (Conto)

Menina do Sorriso,
Ainda leio aqueles poemas de amor que escrevi sem saber o que fazia. Aqueles versinhos que fazia para te ver sorrir. Ainda escrevo poesias com sua foto ao lado da escrivaninha, confesso que não a olho muito, mas não consegui abdicar desse antigo ritual. Ah, camponesa dos cabelos dourados me deixaste desamparado indo embora sem deixar recado, e voltando ao seu interior pacato. Não te culpo minha bela, algumas lagartas não nasceram para voar. O erro foi meu em embriagar-te com meus versos e trazer-te ao meu casulo.
Nossa cama ainda está milimetricamente bagunçada, acho que naquela configuração seu corpo aparenta ainda estar conservado ali, como se estivesse de volta... volta pra casa, pra minha casa. Não sei se acreditará, mas o casulo parece um templo gigantesco feito para homenagear um deus de extrema grandeza e valor. Sabe que nunca gostei da arquitetura dessas igrejas antigas, dentro dela me sinto sozinho. Sozinho como uma lagarta dentro de um casulo construído para duas lagartas.
Em fim, não quero parecer desesperado, o que desejo realmente é poder contemplar a lua refletindo seu multidimensional brilho. E quando cansar de admirar suas formas embelezando a natureza gostaria de tocar-te como quem sente o macio da neve no cume de uma montanha que demorara dias para vencer a escalada. Tocar-te, fitar-te com os olhos e beijar-te, como um beija-flor sugando o néctar da primeira flor da estação. Por favor, volte enquanto ainda sua foto revitaliza o ambiente e eu ainda consiga escrever, pois caso contrário eu e tudo que eu tenho estamos fadados a morte.
 
OBS: Estou dormindo no sofá do casulo para conservar o estado da nossa cama. Não demore, pois estou morrendo de dor nas costas.

Herança Materna

Oitavo andar... Edifício mal cuidado.
Atrás da porta 823 repousa
O que de melhor para mim deixaram.
Ao abrir a porta
O breu silente assombrou meu equilíbrio.
Janelas fechadas com tábuas
Alastrava o que naquele lugar havia de sinistro.
No tapetinho de entrada sandálias...
Móveis cobertos por um pano branco
Acresciam um semblante de assassinato.
A minha cor facial no ímpeto do momento se modificou
Em um insight me toquei que minha herança não continha valor.
Decepção, dor, tristeza... um mix de emoção
Ela se foi sem lembrar de mim.
No momento cresceu no peito a sensação
De que valor nenhum possuí.
Erguendo a cabeça para me despedir da minha mediocridade
Reconheci, sobre a mesa, um livro velho e rasgado.
Eram sonetos de Florbela.
Logo percebi as intenções “dela”
Em deixar de herança, poesia.
E  são nesses versos se concretizam
O que minha mãe de melhor deixou
A forma de expressar em arte o amor.

Fome

Sentei a mesa.
O cheiro da comida me dava asco.
Estava acompanhado.
Na outra cadeira sentava-se a fome.
A fome me consumia.
Ela me comia...
E eu não queria a comida.
Olhei ao meu redor e haviam humanos gordos.
Gordos de ego.
Eu odeio o sabor do ego!
Pensei nos talheres,
Nas mesas, cadeiras,
Lâmpadas...
Mas eles não me excitavam.
A morte já tinha me devorado da cintura para baixo.
Nada nesse mundo me fazia feliz
A não ser minha tenra pele.
E eu a comi.
Como quem come por amor,
Como quem saboreia uma flor
COUVE-FLOR.
Minha pele, meus olhos...
Faltou a mão,
Largarei a caneta
E como se faz com a melhor parte
Comerei bem devagar.
Sim, a melhor parte do meu corpo são minhas
MÃOS.

Bárbara

Bárbara

Sou capitão do exército romano.
Entreguei minha vida a Cesar.
A partir de então não temo a morte
E não perco meu tempo com tolices
Como amor e os demais sentimentos.

Contudo, percebi meus sentidos esmiuçar-se
Quando um deslize cometi.

Era manhã dominical.
Eu liderando uma tropa de guerreiros,
Voltávamos para nossa pátria pela floresta.
Nesta mesma manhã
Havíamos nos consagrado vitoriosos
Em um duelo contra bárbaros vizinhos de fronteira.
Havíamos dizimado seu exército e seu povoado.
A maior parte dos soldados estavam feridos.
Na floresta os raios de sol transpassavam
As frestas não preenchidas pelas folhas que estavam na copa das arvores,
Acrescentando beleza as flores que amarelas
Estavam devido à estação.
Um fecho luminoso apontava um local no solo encoberto por folhas,
Fixei meu olhar naquele lugar.
Quando cheguei perto do dito local,
Uma mulher saltou de debaixo das folhas
Em direção ao meu cavalo
Que assustado empinou me derrubando no chão.
Habilmente imobilizei a moça
Que instantaneamente imobilizou meu coração.
Eu a levei como prisioneira,
Mas confesso que não consegui retirar meus olhos daqueles olhos.
Sua pele era alva, seus cabelos negros, altura mediana
E olhos que me diziam palavras hostis.
A noite caiu, levantamos acampamento.
Meus olhos fechados não evitavam que meus
Pensamentos girassem como uma criança hiperativa.
Ouvi um barulho do impacto entre metais,
Saí imediatamente da tenda para conferir...
Foi quando me deparei com a bela bárbara
Tentando livrar-se das correntes.
Meus olhos a fitaram por eternos minutos,
Meus pés começaram a mover-se.
Enquanto me aproximava,
A prisioneira proferia palavras em tons ríspidos
E em um dialeto que eu não compreendia...
Mesmo se compreendesse não causaria efeitos,
Pois estava me movendo guiado por seus lábios.
Minhas mãos seguraram firmemente em seus braços...
Meus lábios lentamente se aproximaram dos seus lábios...
Inevitavelmente a beijei.
Suas mãos acorrentadas tiraram minha couraça
E seu fôlego indiscreto ascendeu à centelha de desejo
Que guardado estava há anos.
Senti suas mãos deslizando por minha cintura
Discretamente como sombra de fumaça,
Pegou a chave que estava no meu coldre
E gatunamente se destrancou.
Senti que ela prolongou o beijo,
Mas de repente ela virou-se e fugiu.
Eu passei o restante da noite ali sentado
Aproveitando a faísca sentimental
Que ainda queimava em meu peito.
Contudo, o sol veio anunciando a manhã
E como um bom servo, vesti a couraça...
Despi-me dos sentimentos que ainda fumegavam
E segui meu rumo com minha tropa! 

O grisalho da face

Em uma das casuais visitas de amigos ouvi em um comentário, que soou preocupante, que meu rosto estava pálido. Eles não entendem que ao envelhecer todos adquirimos um sabor fúnebre de grisalho ao rosto, talvez não seja essa a dinâmica da vida, e sim da morte.
A cor da morte é o cinza. É vantajoso morrer em cinzas, pois as outras mortes não possuem beleza. Contudo, o fogo que abraça a matéria consegue influenciá-la com seu apimentado calor a entrar em uma lenta mutação... metamorfose de corpo, de cor, cheiro e de sabor. E quando o silente fogo envolve sensualmente a dita mutação suas cores variam entre o branco e extremo preto. Quando tudo for roubado daquele corpo, ele perde sua vida bem no ápice do êxtase. E assim o sedutor se apaga completando sua linda dança lúdica desaparecendo. A cor da morte é o cinza.